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António Gil Andrade e Silva

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There are more things in heaven and earth than are dreamt of in your philosophy

-=|G¡£|=- - كويكينو

A vida é uma sucessão de sucessos e insucessos que se sucedem sucessivamente sem cessar!
9/14/2007

Capítulo XI - O Crime

Durante o jantar, Manuela contou em pormenor tudo o que tinha ouvido naquela manhã, mostrando os apontamentos que tirara. Infelizmente não conseguiu ouvir qual era a pequena cidade cujo banco ia ser alvo do assalto, pelo que João não podia avisar o seu superior.

- Por um lado é melhor assim – disse Alberto.

- Porque dizes isso? – Perguntou João.

- Porque se tu avisasses a polícia, eles iam tentar evitar o assalto, as coisas poderiam correr mal e haver feridos ou mortos inocentes.

- Isso é verdade, mas…

- Além disso eu acho que é preferível que eles executem o plano como definiram. Primeiro porque eles andam muito nervosos e a espiar tudo e todos. Depois, porque assim tu tens hipótese de desmascarar toda a operação e prender todos os implicados, o que não seria possível se prendessem os russos no assalto ao banco.

- Tens razão. É um bocado diabólico, mas é bem pensado.

. Neste momento acho que temos de jogar de acordo com as regras deles, ou então não teremos chance nenhuma de os vencer.

- Sou forçado a reconhecer que tens razão. O que achas disto Manuela?

- Eu acho que o Dr. Alberto tem razão, mas confesso que estou com muito medo.

- Também eu, Manuela. Mas vamos combinar uma coisa. A partir de agora o Dr. fica para a empresa. Estamos metidos nisto juntos. Acho que é um motivo bastante forte para nos tornarmos amigos pessoais.

- está bem Dr… eeehhh… Alberto.

- Boa! Agora que somos todos amigos, vamos beber uma tacinha de champagne que eu por acaso tenho ali no frigorífico.

- Por acaso, João? – disse Alberto piscando-lhe o olho.

Manuela riu-se, mas ficou ligeiramente corada.

Mais tarde, como a hora já ia avançada, João foi levar Alberto e Manuela a suas casas.

Passaram primeiro por casa de Manuela, dando a volta ao quarteirão com muita cautela, sondando a área para se certificarem que o prédio não estava a ser vigiado. Não detectando nada de anormal, João e Alberto resolveram acompanhar Manuela até à porta do apartamento, mais como companhia do que por segurança.

Pouco depois de Manuela fechar a porta, quando Alberto e João estavam a entrar no elevador, ouviram um grito de puro terror vindo do apartamento. Voltaram os dois a correr em direcção à porta quando Manuela saiu de lá em pânico, agarrando-se a João, que a abraçou e tentou acalmar, enquanto Alberto entrava no apartamento, no que foi seguido pelos dois.

O cenário que os aguardava não era do todo o que qualquer um deles estava à espera. Desde há uns meses para cá que qualquer um deles não iria achar estranho se chegasse a casa e a encontrasse virada de pernas para o ar, revistada de cima a baixo, talvez simulando um assalto, mas na verdade resultado de uma “inspecção” dos capangas de Júlio. No entanto, o que os esperava não estava dentro dos seus piores receios.

A casa encontrava-se impecavelmente arrumada, sossegada, tal e qual como Manuela a tinha deixado antes de sair. As únicas coisas que não encaixavam bem nesta pacata harmonia eram a enorme mancha de sangue espalhada por toda a parede da sala e o corpo da senhoria de Manuela caído no sofá, com parte da cabeça desfeita por um tiro e uma grande poça de sangue que caía do sofá para o chão.

Manuela estava aterrorizada, toda ela tremia nos braços de João, com a boca aberta sem conseguir produzir nenhum som.

Alberto olhava incrédulo para aquela cena, pensando que nunca esperava que Júlio chegasse a um extremo daqueles.

João estava mais preocupado em acalmar Manuela do que em estudar a cena. Estava habituado a presenciar cenas de crimes e sabia que iria ter muito tempo para estudar todos os pormenores, pois tencionava tomar conta da ocorrência.

Rapidamente tomou o controlo da situação, retirando Manuela da sala, levou-a para a cozinha e perguntou-lhe onde estavam os utensílios para fazer um chá.

Enquanto tomavam o chá, Alberto e João conversavam sobre o ocorrido e tentavam delinear um rumo de acção. Manuela estava totalmente alheada do que se passava, ainda em estado de choque.

- Achas que o alvo era a Manuela, ou isto foi uma tentativa de a “avisar” a estar calada?

- Poderia ser um aviso se a Manuela não tivesse saído de casa com as roupas da senhoria. Eles viram a senhoria a sair e pensaram que a Manuela estava sozinha em casa. Não há dúvida que o objectivo era eliminar a Manuela, não assustá-la.

- E achas que eles podem ter tentado matar-me a mim também?

- Não sei. Pode ser que tenha a ver com o caso da sala de cópias hoje de manhã. Podia ser apenas uma forma de a silenciar.

- Só não entendo a arrumação da casa. Não seria de esperar que tentassem disfarçar como se tivesse sido um assalto?

 -Não, no caso de quererem aproveitar para te mandar um recado.

- Um recado?

- Claro. Com o ocorrido não há dúvida que eles pensavam que Manuela sabia dos planos para o assalto ao banco. Como sabem que tu e Manuela conversam muito fora do escritório, acharam que Manuela te contou tudo. Como tu és uma peça muito importante na estratégia deles, tu não podes simplesmente ser eliminado, mas podes ser “avisado” das regras e controlado. Assim, matando a tua secretária, estão ao mesmo tempo a eliminar uma espia e a meter-te na linha.

- Estou a ver. Achas então que não tentaram ir a minha casa.

- Acho que não. Acho que têm alguém lá de vigília para te seguir caso saias de casa. É por isso que o melhor é levar-te a casa a tu amanhã saíres normalmente para o trabalho.

- Para o trabalho? Meter-me lá outra vez, agora que sei do que são capazes? Como queres que eu faça isso?

- É importante que o faças Alberto. Não te esqueças que tu não sabes de nada do que aconteceu. Só amanhã é que vais dar pela falta da Manuela no trabalho e só vais saber o que aconteceu pelas notícias.

- Mas aí eles também vão saber que não foi a Manuela que eles eliminaram.

- É aí que entro eu. Sabes muito bem que a polícia apenas conta aos jornalistas aquilo que quer e, mexendo os cordelinhos certos, eu consigo chegar a um acordo com eles para que não revelem para já a verdade do crime.

- Mas como esperas consegui-lo? Não te esqueças que os jornalistas fazem trabalho de investigação independente e que muitas vezes descobrem coisas importantes e vitais.

- Sim, eu sei. Mas basta acenar-lhes com a promessa de um furo jornalístico muito maior do que um simples homicídio, e eles ficam dispostos a negociar.

- Que furo?

- Como que furo? Alberto! E toda esta história do rapto dos netos do Presidente, a própria existência de uma Organização como aquela em que tu trabalhas… Isso vale mais do que mil homicídios.

. Sim, tens razão. Mas não te esqueças que a organização em que trabalho tem uma posição fortíssima na comunicação social.

- Sim eu sei. Quanto aos restantes órgãos de comunicação eu consigo o acordo, já não seria a primeira vez. Quanto à tua organização, isso vai caber a ti controlar o que fazem.

- Como assim?

- Não és tu o responsável pelo departamento jornalístico? Então, como forte interessado (não te esqueças que foi a tua assistente a vítima), vais querer descobrir tudo, mas como elemento importante das manobras da Organização, vais ter de desviar o olhar da população do verdadeiro contorno do caso.

- Estou a ver. Mas… e Manuela? O que vai ser dela?

- Para já vai ficar em minha casa, que é o único local seguro. Depois vamos ver qual será a melhor solução. Agora vamos embora, que já é tarde. Vai ao quarto de Manuela e leva uma mala com alguma roupa para ela. O resto das coisas eu vou levando quando estiver cá no decurso das investigações.

- Certo. Volto já.

Enquanto Alberto preparava a mala, João tentava confortar e acalmar uma Manuela que estava totalmente alheada do que se passava à sua volta, tal era o estado de choque e pânico em que se encontrava.

Após deixar Alberto em casa, voltando a entrar pela garagem (os acessores ainda estavam a vigiar a casa, o que confirmou a sua teoria), João levou Manuela para sua casa e instalou-a no quarto de visitas.

No entanto Manuela não estava em condições de ficar sozinha e acabaram os dois por passar a noite a ver televisão, evitando filmes ou séries que contivessem homicídios.O dia seguinte seria, na verdadeira acepção da frase, o primeiro dia do resto da vida de Manuela. 

8/21/2007

Capítulo X - O Plano

No dia seguinte, de manhã bem cedo, Manuela quis aproveitar o facto de Alberto não ir para o escritório da parte da manhã para dar um adiantamento ao trabalho que estava pendente.

Após tratar dos assuntos mais importantes, pegou num conjunto vasto de documentos e foi para a sala de fotocópias para copiá-los e poder entregar os originais a Alberto para que os arquivasse.

Estava na sala de cópias havia pouco tempo quando se apercebeu de uma conversa de fundo que vinha da sala ao lado, que era a sala de reuniões da empresa.

Com o passar da conversa, Manuela apercebeu-se que os “acessores” de Júlio estavam a discutir os pormenores de um plano qualquer. Curiosa, chegou-se mais para perto da parede, numa tentativa de perceber o que eles diziam.

O que ouviu deixou-a consternada. Manuela estava a testemunhar o planeamento ao pormenor de um assalto a um banco de uma pequena cidade de interior, com o objectivo de conseguir dinheiro para financiar, entre outras, a missão de que Alberto estava encarregado.

Não se contentando em ouvir, Manuela escreveu os pormenores que conseguia entender, de forma a não se esquecer de nada quando fosse falar com Alberto.

Estava já a preparar-se para voltar para o gabinete de Alberto quando um dos acessores entrou na sala das fotocópias. Manuela ficou muito assustada, mas tentou disfarçar o melhor que sabia, acabando de arrumar as fotocópias (no meio das quais estavam os seus apontamentos da conversa que ouvira).

Embora o acessor não tenho dito nada, Manuela ficou com receio que ele ficasse desconfiado, mas apenas o cumprimentou e foi-se embora.

Mais assustada ainda ficou quando, a meio da manhã, um outro acessor foi à sua sala para “conversar”, coisa que não era muito normal.

Pelo andar da conversa, Manuela ficou com a impressão que o acessor estava a tentar “tirar nabos da púcara”, numa tentativa de descobrir se Manuela se apercebera do teor da conversa. Manuela nada deixou escapar e o acessor acabou por se ir embora sem saber nada.

No entanto Manuela não ficou mais sossegada e o receio foi tomando conta dela.

Quando Alberto entrou, Manuela estava numa pilha de nervos, incapaz de fazer nada de produtivo.

- Bom dia Manuela. Mas… o que se passa? Está com uma cara que até me assusta.

- Bom dia Dr. Alberto. Estava mesmo a sair para tomar um café. Quer vir?

- Com certeza. Vamos lá.

Após o relato de tudo o que se passara naquela manhã, Alberto pegou no teu telemóvel para ligar ao João, mas quando já estava a marcar o número desligou e olhou para Manuela.

- Será que é seguro fazer uma chamada deste telefone? E se eles têm os nossos telefones sob escuta?

- Acha que sim? Mas o Dr. Alberto diz que eles não têm motivos para desconfiar de nós…

- Isso era o que eu pensava. Mas a verdade é que esta história está a ficar com uns contornos tão invulgares que todo o cuidado é pouco. A partir de hoje acho que não devíamos fazer nem receber chamadas entre nós e o João. Apenas deveremos comunicar através de telefones públicos. Vou ali à cabine telefónica ligar ao João. Volto já.

Alberto foi telefonar a João para lhe contar as novidades enquanto Manuela olhava nervosamente para a rua.

De repente viu dois acessores de Júlio dirigirem-se para o café, mas por sorte Alberto já estava de volta à mesa antes de eles entrarem.

- Cuidado Dr. Alberto. Aí vêm dois deles.

- Estou a ver. Vamos agir com naturalidade.

Os acessores entraram no café e olharam para todos os lados até verem a mesa onde estavam Alberto e Manuela. Dirigiram-se a eles:

- Olá. Por aqui?

- Olá! É verdade. Sentem-se aí.

- Obrigado.

Alberto não sabia se era pelo facto de saber os pormenores do assalto planeado ou se era por paranóia, mas teve a certeza que os acessores estavam ali propositadamente à procura deles. No entanto não deixou transparecer os seus sentimentos e agiu com a maior naturalidade que conseguiu.

A determinada altura uma pergunta de um dos acessores veio reforçar ainda mais esta ideia.

- Então vocês não gostam do café lá da cantina? O café lá é mais barato…

- É verdade, mas pelo menos aqui fica mais fácil de nos abstrairmos do trabalho e termos uns minutos de sossego.

- Sim, isso é verdade. Na cantina não se ouvem outras conversas que não tenham a ver com a empresa ou com as pessoas da empresa.

- Sim. É por isso que eu gosto de vir cá fora. E hoje, por uma questão de cortesia, convidei a Manuela para vir comigo.

- E fez muito bem. Mas prometo que não vamos ser nós a falar sobre a empresa ou o trabalho. Também nós queremos mudar de ares.

Alberto não acreditou, mas sentiu-se aliviado por ter mantido a calma e a serenidade necessárias para mostrar o à-vontade natural de quem não tem nada a esconder.

Alegando ter de preparar o trabalho para a sua missão, Alberto e Manuela ficaram o resto do dia fora do gabinete, tendo o cuidado de ir a locais necessários ao estudo do melhor plano para a sua missão. Durante o dia andaram por vários pontos que poderiam revelar-se estratégicos e, por várias vezes, tiveram a certeza de que estavam a ser seguidos.

Perto do fim do dia voltaram para o escritório, terminaram os trabalhos do dia e foram-se embora, cada qual para o seu lado para não levantar suspeitas.

Alberto foi directo para casa e, lá chegando limitou-se a esperar a chegada de João, como tinha ficado combinado durante o telefonema feito da cabine pública. Teve o cuidado de fazer um telefonema para casa dos seus pais na esperança de que, se o seu telefone de casa estivesse sob escuta, ele desse a entender que estava tudo normal.

Quando João chegou, tal como combinado, entrou directamente pela garagem do prédio e foi chamar Alberto. Saíram ambos pela garagem e, quando o carro de João saiu para a rua, Alberto estava deitado no banco de trás, de forma a não ser visto da rua, caso o seu prédio estivesse a ser vigiado.

Relativamente a Manuela, já tinham combinado encontrar-se num café, longe da casa dela, sendo que ela deveria sair de casa de forma discreta.

Manuela tinha saído de casa disfarçada com a roupa da sua senhoria, que era uma senhora idosa e viúva, pelo que facilmente Manuela pode sair sem ser descoberta.

Desta forma os três puderam encontrar-se sem que os seus seguidores se apercebessem e foram jantar a casa de João, de forma a não correr o risco de serem encontrados.

O final dessa noite, quando fossem novamente para suas casas, iria revelar-se aterrador. 

8/16/2007

Capítulo IX - Novas Revelações

Quando chegou ao escritório no dia seguinte, Alberto deu de caras com Manuela, ainda antes de terem entrado no edifício.

- Dr. Alberto. Bom dia.

- Bom dia Manuela. Já tomou o pequeno-almoço? Não? Então venha daí que hoje sou eu que pago.

- Aconteceu alguma coisa? Está muito bem disposto hoje…

- Acha mesmo? Pois posso garantir-lhe que não estou nada bem disposto. É verdade que não estou mal disposto, mas também não diria o contrário. Ontem eu e o João demos de caras com o Júlio num café.

- Com o Dr. Júlio? E o que foi que ele disse?

- Nada de especial. Eu e o João conseguimos disfarçar e acho que ele ficou com a impressão que nós estávamos numa saída normal. Além do mais ele não sabe que o João é polícia.

Com o passar do tempo, Alberto foi contando o sucedido na noite anterior.

Teve um momento de hesitação quando chegou à altura de revelar a verdadeira natureza da sua missão, mas pensou que, sendo Manuela a sua única aliada na empresa, o melhor seria ela saber a realidade, para melhor ponderar o perigo que corria.

Manuela também tinha algumas novidades para contar a Alberto, novidades que tinha obtido na sala de secretariado.

Contou que os acessores dos directores eram antigos prisioneiros, condenados por crimes violentos, que se tinham associado para criar uma empresa de “prestação de Serviços Pesados”.

- O que é pior, Dr. Alberto, é que aqueles acessores do Dr. Júlio que estavam na sala quando o senhor os surpreendeu têm ligações à máfia russa.

- A sério? Mas nenhum deles tinha sotaque que os identificasse como estrangeiros.

- Pois não. Mas o que se diz por aí é que eles são antigos operacionais do KGB, que aprenderam a falar português para poderem vir para Portugal influenciar o rumo dos acontecimentos depois do 25 de Abril.

- Como assim? Eram espiões cá em Portugal?

- Parece que na antiga União Soviética não estavam nada contentes com o rumo que a Revolução tomou e que, com o conhecimento do Partido Comunista Português, tinham intenção de “invadir” Portugal com remessas atrás de remessas de espiões e provocadores, numa tentativa de virar o nosso país rumo ao comunismo.

- Isso que me está a contar é muito grave. A Manuela tem forma de confirmar se esses rumores têm fundamento?

- Eu acho que sim. Parece que um dos “acessores” tem um fraquinho pela Rita, a secretária do departamento de Recursos Humanos. Com algum manuseamento sou capaz de a convencer a “sacar-lhe” algumas informações e a passar-mas.

- Isso é muito bom.

- Eu não lhe tinha dito que isto das novas regras ainda ia ser positivo para nós?

- Sim, é verdade. Mas com todos estes factores novos, temos de agir com muito mais prudência…

- Sim. Com este tipo de pessoas não se brinca.

- Eles não hesitam em “eliminar” quem se lhes oponha…

Depois de tomado o pequeno-almoço, Alberto e Manuela foram para a empresa, Alberto para preparar o trabalho do dia e Manuela foi ao departamento de recursos Humanos falar com a Rita. Alberto estava hesitante sobre se seria a melhor altura para começar com indagações, mas Manuela disse que qualquer altura era boa para conversar com a Rita e que tinham de começar a agir quanto antes, senão nunca mais fariam nada.

Meia hora mais tarde Manuela voltou para a sua secretária, mas nada disse a Alberto, pois ambos tinham concordado em não fazer a menor referência à sua acção no local de trabalho, pois Alberto tinha a certeza que o seu escritório estava sob escuta.

Na hora de almoço, Alberto convidou Manuela e ambos foram almoçar a um restaurante perto da praia, que ficava suficientemente distante da empresa para evitar encontrar colegas de trabalho.

- Então Dr. Alberto, o seu amigo João não vem almoçar connosco hoje?

- Infelizmente hoje ele está numa investigação fora da cidade, mas temos de lhe passar rapidamente as novidades sobra a máfia russa e os “nossos amigos acessores”.

- Sim. Se há pessoa indicada para descobrir alguma coisa relacionada com a tal empresa de “Segurança”, essa pessoa é o inspector Bernardes.

- Acha que sim Manuela? Pensei que a Manuela tratava desse assunto, com todos os contactos que tem no secretariada.

- Lá está o Dr. Alberto a brincar comigo. Claro que eu, no secretariado, consigo obter muita informação mas, além de ser apenas referente à empresa, é uma informação que tem de ser muito filtrada, porque surge na forma de mexericos.

- Isso é certo, mas muita verdade circula sobre a forma de mexericos.

- É verdade, por falar em mexericos. Falei com a Rita sobre sacar informações sobre o acesso e ela mostrou-se disposta a consegui-las.

- Sim? È não ficou curiosa sobre porque é que a Manuela queria essas informações?

- Aí é que está, Dr. Alberto. Eu não lhe pedi informações propriamente ditas, eu pedi-lhe coscuvilhice, pois não há nada que as secretárias gostem mais do que contar as “novidades” sobre toda a gente. Por isso que esta história dos relatórios semanais é uma boa fonte de informações.

- Estou a ver. Mas pode ser uma faca de dois gumes.

- Como assim?

- Se o Júlio desconfiar de alguma coisa, pode ser uma boa fonte de desinformação.

- Pois é. Não tinha pensado nisso.

- Por isso toda a cautela não será demais.

Assim foi passando o almoço e o resto do dia de trabalho. No fim do dia Alberto encontrou Júlio no parque de estacionamento. No meio da conversa Júlio fez um comentário que deixou Alberto de sobreaviso:

- Então Alberto, tens andado a almoçar muitas vezes com a tua secretária.

- Achas? Nem por isso. Não tenho estado mais do que o habitual.

- Sim é verdade. O teu departamento sempre foi muito unido. Acho que é uma consequência directa da tua personalidade. Vê-se que as pessoas têm gosto em trabalhar contigo. Mas diz-me: achas que a Manuela aguenta bem com a natureza das tuas novas funções?

- Quanto a isso não precisas de estar preocupado. Embora haja muita união no meu departamento, como tu dizes, o meu pessoal trabalha numa base de conhecimento mínimo. Só sabem o que for estritamente necessário para o desempenho das suas funções.

- Óptimo, óptimo. É por isso que eu sempre apostei em ti. Não há dúvida que és a pessoa certa no lugar certo.

- Podes ter a certeza.

- Fico muito satisfeito que seja assim. É verdade. O teu amigo é muito simpático. Gostei dele. Temos de combinar uma saída.

- Com certeza. Marca o dia.

Assim farei. Bem Alberto. Vamos embora que amanhã é outro dia. Até amanhã.

- Até amanhã Júlio.

Alberto ficou ansioso para que chegasse o fim do dia seguinte, altura em que tinha marcado um jantar com João e Manuela. Finalmente iam dar início à execução do seu plano. 

3/28/2007

Capítulo VIII - A Missão

- Júlio! Não estava nada à espera de te encontrar aqui. Não imaginava que também comias destes hambúrgueres.

- Como não? Não há nada melhor para compor o estômago depois de uma noite de copos.

- Isso é verdade. Júlio, este é o João Bernardes, um amigo meu dos tempos do liceu. João, este é Júlio Mendes, o meu director lá na empresa.

- Prazer Sr. Bernardes. Bem, não quero estragar a vossa noite. Vou comer um hambúrguer e vou para casa, antes que a minha mulher me ponha as malas à porta.

- Junta-te a nós Júlio. Também só vamos comer um hambúrguer antes de ir para casa.

. Não incomodo?

- Claro que não! Senta-te aí.

- Ok então.

Refeitos da surpresa de encontrarem Júlio no café, Alberto e João conseguiram manter uma aparência descontraída e normal, típica de dois amigos numa noite de farra.

Após comerem os hambúrgueres e terem conversado sobre trivialidades, os três homens separaram-se para grande alívio de João e Alberto.

Quando já estavam dentro do carro, Alberto disse:

- Não estava nada à espera de ver o Júlio. Achas que foi coincidência, tal como ele disse?

- Claro que não, Alberto. Foram aqueles gajos que lhe disseram onde estavas e com quem. Aposto que ele quis verificar com quem estavas e do que poderias estar a falar.

- Sim, suponho que sim. Ainda bem que estivemos hoje com o Pedro, do tempo do liceu, pois refrescou-nos a memória e assim foi mais fácil manter uma conversa casual.

- Sim, é verdade.

Chegaram a casa de Alberto onde João tinha deixado o carro e subiram os dois para poderem continuar a conversa.

- João, porque não dormes aí? A cama do quarto de hóspedes está com roupa lavada e assim podíamos conversar pelo resto da noite.

- Boa ideia. Assim podemos falar daquilo que ando para te perguntar há já algum tempo.

- Sim? O que queres saber?

- Qual é afinal a grande missão que tens de desempenhar?

- É uma coisa que vai contra todos os meus princípios e contra a minha maneira de ser, já para não dizer que constitui um crime.

- Eh lá! Um crime? Isso já começa a entrar na minha área.

- Pois é. Também é por isso que eu fico muito contente por te ter do meu lado, não é só pela velha amizade que nos une. A tua profissão pode muito bem ser favorável à minha situação.

- Já sabes que farei tudo o que estiver ao meu alcance. Mas diz lá do que se trata a tal missão.

- Como já deves ter reparado pelas notícias que têm sido divulgadas, o novo Presidente da República não está com muita vontade de promulgar uma lei que viria favorecer ainda mais a organização onde trabalho. Além disso, está com ideias de retirar algumas vantagens que já temos, e apertar a fiscalização sobre as actividades desempenhadas. Como deves imaginar, isso não está a ser recebido muito bem por ninguém lá na organização e apertar o Governo não tem adiantado nada.

- Imagino como deve estar o ambiente lá.

- Duvido que consigas imaginar. Já foram recrutados novos elementos cuja capacidade profissional nada tem a ver com as actividades normais e legais de uma organização do ramo. Diria mesmo que, pelo aspecto, são indivíduos com especialidades muito específicas, sendo por isso muito bem remunerados. No entanto esses indivíduos não constam da folha de pagamentos.

- Muito suspeito, isso tudo.

- O pior é que foi delineado e para o qual o Júlio quer todo o meu empenho inclui um acto que eu não quero nem poderei nunca realizar.

- Que acto é esse?

- Em resumo, eu tenho de organizar, planear, liderar e controlar toda uma operação destinada a raptar os netos do Presidente da República, de forma a torná-lo refém dos desígnios da Organização.

- O quê?!?!?!?! Raptar os netos do Presidente da República?

- Isso mesmo. Como o exército depende do dinheiro e patrocínio da organização, assim como os ministros que tutelam as várias polícias, o Presidente da República nada poderá fazer para evitar ficar numa situação de total dependência dos raptores.

- Estou a ver. E se o Presidente da república apelar para a ajuda Internacional?

- Sabes perfeitamente que, num caso como este, a maioria dos países ocidentais encontra-se numa situação idêntica, em que o poder político está nas mãos de meia dúzia de todo-poderosos que raramente aparecem em público. Se tentarem interferir ficam numa situação idêntica.

- Isso é verdade.

- E que os restantes países não querem saber, ou então não têm meios necessários para ajudar.

- Pois é. Mas porque é que tu não te despedes?

- E tu achas sinceramente que eles se limitavam a deixar-me vir embora, sabendo eu o que sei, não só deste plano, mas de toda a actividade da organização? Não dá João. A única coisa que eu posso fazer em consciência é tentar minar as coisas por dentro.

- Ainda por cima andas a ser pressionado e vigiado pelo teu superior.

- Vigiado, eu acho que não. Sinceramente acho que o episódio de hoje foi mais para me pressionar a fazer alguma coisa do que propriamente para me vigiar ou controlar. Olha lá João, será que tu não podes mexer uns cordelinhos lá na polícia e tentar descobrir o que se passa?

- Bem, Alberto, a verdade é que este tipo de investigações dependem directamente dos directores nacionais que, como sabes, são nomeações políticas. Se eu levar este caso à luz, por mais que desperte a curiosidade dos operacionais, a sua investigação vai ser sempre impedida e eu vou ficar debaixo de olho por ter levantado a questão.

- Pois! Então não há nada a fazer…

- Oficialmente não. Mas achas mesmo que eu vou ficar de braços cruzados sabendo o que me contaste e a posição em que estás? Posso sempre fazer umas averiguações “privadas”, sem levantar suspeitas. Digo-te! O melhor para já é que ninguém na polícia saiba, para que não chegue aos ouvidos dos políticos. Só assim teremos hipóteses de descobrir alguma coisa. Deixa estar que eu vou começar já amanhã a fazer umas averiguações pessoais!

- Amanhã não! Daqui a bocado! Já viste bem as horas? Vamos mas é dormir, que eu tenho a certeza que o Júlio vai aparecer cedo no meu escritório, para ver se esta noitada não me abalou o espírito.

- Podes crer! Olha só para as horas. Vamos para a cama que daqui a nada temos muito para bulir. Até amanhã Alberto.

- Até já João. E obrigado mais uma vez.

- Esquece isso agora e dorme, que bem precisas.

Com estes pensamentos na cabeça, cada um deles foi para o seu quarto, numa vã tentativa de conciliar o sono.

Quando o despertador tocou, na manhã seguinte, nenhum dos dois tinha dormido um minuto que fosse, preocupados que estavam com a situação em que se viam envolvidos.O que haveria agora a fazer para tentar evitar que uma situação tão grave e perigosa acontecesse? Por mais voltas que desse à cabeça, Alberto não conseguia encontrar uma solução simples e segura para resolver este caso.

3/22/2007

Capítulo VII – Na noite

João entrou na casa de Alberto e pensou que, para um homem que andava sob tão grande pressão, nada em Alberto o dava a entender. A sua casa estava impecável como sempre, e o próprio Alberto parecia uma pessoa que vivia no meio da calma.

Aparentava uma serenidade interior comparável com a daquelas pessoas que estão em paz consigo mesmas, sem batalhas morais interiores e sem a enorme pressão que Alberto sofria no seu emprego.

- Como é que este gajo consegue manter esta calma? Se fosse comigo, já toda a gente tinha notado que havia alguma coisa a preocupar-me.

Alberto veio do quarto com um espírito equivalente ao momento. Parecia que ia passar uma noite com o seu amigo, uma noite de copos sem preocupações e sem problemas.

- Então João? Pronto para a farra?

- Eu estou mas é pronto para saber mais do teu caso e delinear o nosso plano de acção. Afinal, que história é essa de novas regras?

A propósito… fiquei muito contente por saber que podes contar com uma aliada na tua empresa.

- Pois. Ficaste contente com o facto eu de ter uma aliada ou com o facto de a aliada ser a Manuela?

- Oh Alberto! Tu já sabes como eu sou! É claro que fiquei muito contente com o facto de teres uma aliada quando pensavas que não podias confiar em ninguém, mas se adicionarmos a isso o facto de ser a jeitosa da Manuela ainda me deixa mais contente.

- Claro! Eu vi logo!

- Mas como é? Vamos para a noite ou vamos ficar aqui?

- Vamos embora.

Saíram os dois e João disse.

- Onde vamos? Um sítio calmo para podermos conversar, ou um sítio mais animado, para passarmos despercebidos?

- Eu acho que podíamos ir para um sítio que tivesse a mistura dos dois, porque senão não nos entendemos um ao outro.

- Concordo. Se vamos para uma discoteca ainda perdemos o rumo das coisas e acabamos a noite como antigamente, cada um para o seu lado.

- Outra coisa… vamos só os dois, ou a Manuela também vai?

- Estás mesmo muito interessado! O que é que se passa contigo, João?

- Pá, já sabes que considero a Manuela uma miúda espectacular e que não é só de agora. Desde que a conheci que acho que é uma mulher e tanto.

- Pois, eu sei. Mas hoje vamos só nós os dois, porque a Manuela precisava de ir a uma reunião com a senhoria.

- Ok. É pena, mas pronto, vamos lá nós os dois.

 

Saíram os dois de casa de Alberto e dirigiram-se para a zona histórica da cidade, onde poderiam encontrar os bares mais animados e procurados.

Por coincidência encontraram um amigo comum dos tempos da escola e passaram grande parte da noite em amena cavaqueira, a recordar os bons tempos da juventude, quando eram novos e capazes de mudar o mundo.

Perto das quatro da manhã, Alberto lembrou a João que ainda não tinham começado a delinear o seu plano de acção e que, com este ritmo, nem no próximo ano teriam decidido alguma coisa.

- Se as coisas continuam assim, perco toda a confiança que ainda possa ter lá na organização.

- Ainda? Como ainda? Estás a querer dizer que desconfiam alguma coisa de ti?

- Não, acho que não, mas o Júlio anda há muito tempo a observar-me e eu acho que a sua paciência para a minha inacção está a esgotar-se.

- Nesse caso será melhor irmos para um lugar mais sossegado para podermos conversar à vontade.

- Ok. Mas para onde haveremos de ir a estas horas?

- Oh Alberto! Sinceramente! Até parece que não costumas andar na rua a uma hora destas. Vamos para aquele café que serve uns hambúrgueres fantásticos.

- Boa ideia! Já trincava qualquer coisa. Vamos lá.

Dirigiram-se então para o parque onde tinham estacionado o carro e Alberto, de repente, puxa pelo braço de João e diz:

- João! Tás a ver aquele carro? Tenho a certeza que os gajos nos estão a seguir.

- Porque dizes isso?

- Porque aquele carro estava anteontem no parque da empresa, num lugar reservado para as pessoas que vêm falar como Júlio. E mais! O gajo que está ao lado do condutor estava lá no bar, duas mesas atrás da nossa.

- Isso quer dizer que estás sob vigilância? Mas porquê se tu dizes que o Júlio não desconfia de ti?

- Eu disse que acho que não desconfia, mas com isto tudo já não tenho certezas nenhumas.

- Bem… o que vale é que eu estou mais do que habituado a fazer vigilâncias deste género e se realmente for esse o caso, é fácil de descobrir e eu posso arranjar uma maneira de os despistar. De qualquer maneira não estamos a fazer nada que levante suspeitas, por isso vamos manter-nos ao plano.

- Ainda bem que estás aqui. Se eu estivesse sozinho já estava a entrar em pânico.

- Bem, vamos lá para os hambúrgueres e já vamos ver se estamos realmente a ser seguidos ou não.

Com meia dúzia de manobras evasivas, João obteve a certeza de que realmente estavam a ser seguidos e que não os iria despistar sem levantar suspeitas, por isso manteve todo o sangue frio e dirigiu-se ao café de que tinham falado.

- Eles estão mesmo a seguir-nos, mas eu acho que, ou são muito inexperientes, o que eu não acredito, ou não vão entrar no café atrás de nós, para não destruir o secretismo. Vão de certeza ficar num local onde possam observar sem ser notados, por isso temos de agir com naturalidade, ou perdemos a vantagem que temos.

- Vantagem? Que vantagem?

- O facto de sabermos que estamos a ser seguidos.

Tal como João dissera, os seguidores não entraram no restaurante mas, para grande surpresa dos dois, quem apareceu lá meia-hora depois de eles terem chegado foi Júlio em pessoa.

- Alberto! Que surpresa! Por aqui? Que andas a fazer?

11/1/2006

Capítulo VI - O Dr. Júlio

Os dois assessores, após terem saído da sala de Alberto, ficaram por trás a porta, numa tentativa de ouvirem alguma coisa que Manuela pudesse contar a Alberto sobre a conversa que tinham tido acerca das novas regras.

Do pouco que ouviram por trás da porta, ficaram com a sensação que as questões de Manuela eram normais sempre que se implementavam novas regras.

O facto de Manuela não ter comentado nada com Alberto não levantou suspeitas a esta dupla. Como assessores do dr. Júlio, era da sua competência verificar, em todos os sectores, se havia reacções contra as novas regras. A verdade é que naquela organização havia a eterna mania do secretismo e da suspeita, mas nos últimos anos as coisas raiavam a paranóia e os colaboradores eram vistos como potenciais fontes de problemas pelos restantes colaboradores.

Claro que os assessores estavam totalmente a par das verdadeiras e ocultas actividades da organização. Aliás, essas actividades tinham sido o motivo da sua inclusão na organização. Eram dois dos elementos “interventivos” destinados a controlar o normal funcionamento dos negócios mais escuros, com um vasto currículo em actividades dessa natureza.

Eram por natureza desconfiados de todos os colaboradores, na tentativa de encontrar algum elemento que pudesse por em perigo a continuidade dos negócios. Dentro da empresa só tinham de reportar ao dr. Júlio, que era quem dava as instruções sobre o seu trabalho.

Antes de visitarem Manuela, os dois assessores já tinham estado noutros departamentos e tinham-se deparado com o mesmo tipo de objecções que Manuela levantara, pelo que não estranharam em nada a conversa que com ela tiveram. Só não contavam que o dr. Alberto voltasse tão cedo do almoço, mas nada na sua atitude demonstrou preocupação ou estranheza por encontrá-los no seu escritório.

O facto de neste momento estarem a ouvir atrás da porta era apenas mais uma garantia da sua correcta execução das suas incumbências.

Quando se aperceberam que Alberto e Manuela iam sair, fizeram os possíveis por sair dali sem dar nas vistas, pelo que nem sequer olharam para trás.

Foram de imediato fazer o relatório do trabalho desenvolvido durante a hora de almoço. Entraram no gabinete do dr. Júlio e apresentaram-se para entregar o relatório.

- Boa tarde Luísa. O dr. Júlio já chegou?

- Boa tarde. Já chegou e está à vossa espera. Disse que vocês deviam entrar assim que chegassem.

- Muito bem. Então até já.

Júlio estava sentado na sua secretária, visivelmente à espera de que eles chegassem.

- Muito bem meus senhores. O que têm para me contar?

- Correu tudo de acordo com as perspectivas, dr. As reacções foram as que seriam de esperar com a apresentação de novas regras. Todas as secretárias demonstraram uma reacção de revolta, mas nada de especial. Creio que querem passar a imagem que nunca lhes passaria pela cabeça espiar os seus superiores, mas acho que amanhã irão aceitar as novas regras, sem mais objecções.

- Isso é uma opinião pessoal, ou e uma constatação profissional baseada nas vossas averiguações?

- É uma convicção baseada em tudo o que vimos e ouvimos, dr. Júlio.

- Espero bem que sim. Caso isso não se verifique amanhã, vou considerar que os responsáveis pelo insucesso que possa advir é da vossa inteira responsabilidade. O que vos pareceu a reacção da secretária do Alberto? Como se chama?

- A Manuela? Teve uma reacção idêntica à das outras colegas.

- O Alberto continua a ser uma incógnita. Bem me disseram que era perigoso convidá-lo para a organização, mas a verdade é que ele seria muito mais perigoso do lado de fora. É um homem muito inteligente, mas o grande problema é que ele ainda não está a par de todas as nossas actividades. Como eu gostaria de ter a certeza que o Alberto está do nosso lado a 100%. Era um trunfo muito importante.

- O dr. Júlio desconfia do dr. Alberto?

- Não. Mas também não posso confiar inteiramente num elemento que não sabe exactamente o que se passa na organização. Por isso é tão importante verificar como é que ele vai desempenhar o novo empreendimento. Se ele trabalhar como sempre tem feito, sem levantar ondas, é porque podemos passar ao nível seguinte e incluí-lo na realidade dos nossos negócios. Na verdade este empreendimento não é assim tão vital para a organização, mas é ideal para testar as capacidades e a lealdade de Alberto.

- O dr. quer que o mantenhamos sob observação?

- Não mais do que o que já tem sido feito. Não quero que ele se sinta pressionado. Este empreendimento deve ser executado por livre vontade, caso contrário nunca teremos a certeza se o Alberto está ou não no mesmo barco.

- Acha então  que as novas regras sobre os relatórios das secretárias são suficientes?

- Acho que sim. Desta forma vamos tendo conhecimento de todos os passos de Alberto sem que ele fique alarmado.

- Muito bem dr. Júlio. Mais alguma coisa?

- De momento não. Podem ir almoçar. Preparem-se para a visitinha que temos de fazer logo à noite.

-Pode ficar descansado, dr.

Júlio ficou pensativo. Será que ele estava a tomar a atitude certa em relação a Alberto? Será que a personalidade de Alberto lhe iria permitir pertencer à equipa restrita da organização? Júlio pensava em Alberto como um elemento muito importante para o futuro da organização. Se Alberto desempenhasse bem o novo empreendimento, seria excelente para os seus planos. Com o passar do tempo e o acompanhamento que Júlio planeava, Alberto estava apto a desempenhar o papel que lhe estava destinado na organização. Ser o seu sucessor à cabeça dos negócios.

Júlio já estava na idade de pensar como iria sobreviver a organização depois de ele desaparecer. E Alberto era a solução ideal.

Alberto tinha inclusivamente condições de subir mais na hierarquia do que ele próprio tinha conseguido.

Sim! Alberto era uma boa aposta. Tudo dependia apenas da forma como ele iria desempenhar o novo empreendimento.

8/30/2006

Capítulo V – As Novas Regras

Quando chegou ao escritório ouviu um barulho de vozes. Parecia que havia alguém a discutir com Manuela, e não era apenas uma pessoa.

Tentando aperceber-se do que se estava a passar, Alberto não entrou no escritório, mas também não queria ficar no corredor de acesso. Assim, entrou numa sala utilizada para se guardar o material de escritório, que ficava ao lado da sua sala e tentou ouvir o que lá se dizia.

Pelo que ele se apercebeu, dois acessores do seu superior estavam a discutir com Manuela devido a qualquer coisa sobre relatórios. Os acessores estavam a dar uma descompostura a Manuela, afirmando que os relatórios que ela fazia não continham informação relevante. Manuela argumentava que os seus relatórios declaravam toda a actividade do seu departamento, que era o que as regras mandavam. Os acessores continuavam a insistir que tinham de conter mais informação e Manuela, furiosa, perguntou se o que eles queriam era que ela espiasse o seu director. Que se era isso que eles queriam, mais valia dizer de uma vez e deixarem-se de rodeios, que ela demitia-se na hora. Não fora contratada para espiar ninguém.

Esta frase criou um silêncio desconfortável nos acessores e Alberto achou que era altura de entrar na sala e ajudar Manuela.

Quando entrou na sala, os acessores estavam novamente a pressionar Manuela, mas desta vez de uma forma mais condescendente e simpática, nitidamente a tentar mudar o rumo da conversa e ficaram visivelmente atrapalhados com a presença de Alberto.

- Muito bem. Se já não precisa de mais esclarecimentos da nossa parte, nós vamos voltar ao trabalho. Boa tarde Dr. Alberto.

- Boa tarde. O que se passa aqui?

Estão a combinar alguma surpresa? Olhem que ainda falta muito para o meu aniversário. – disse Alberto, tentando demonstrar que não desconfiava de nada fora do normal.

- Não Dr. Alberto. A Manuela tinha umas dúvidas sobre o funcionamento de uma máquina nova e nós viemos ajudar. – Disse um dos acessores olhando para Manuela com um olhar duro e ameaçador.

- Mas agora já estávamos de saída. Boa tarde.

- Boa tarde.

Quando os dois homens saíram, Manuela fez sinal a Alberto para que não falasse e perguntou:

- Já tomou café Dr. Alberto? Posso pagar-lhe um?

- Por acaso ainda não. Vamos lá.

- Vou só buscar a minha carteira. Pronto, vamos.

Quando saíram da sala repararam que os dois acessores ainda se viam ao fundo do corredor e tiveram a certeza de que eles tinham ficado a tentar ouvir a conversa por trás da porta.

Já no elevador Manuela disse:

- É melhor irmos tomar café lá fora, porque eu tenho uma coisa séria para lhe contar.

- Séria? Estou a começar a ficar preocupado. – tentou brincar Alberto, para ver se acalmava Manuela, que estava visivelmente nervosa.

- E deve ficar, Dr. Alberto. Mas conversamos sobre isto lá fora. É mais seguro.

Sentados na mesa do café, conversaram sobre a nova situação que lhes apareceu na empresa.

- Dr. Alberto. Sabia o que aqueles dois queriam?

- Não Manuela não sei.

- Eles queriam que eu espiasse todos os seus movimentos e acções. Não me disseram isso com todas as palavras, mas a sua intenção era inequívoca. Queriam que eu incluísse essas informações nos relatórios mensais que temos de enviar para a Administração.

- Espiar-me? Mas porquê? Desconfiam de mim?

Alberto ficou muito preocupado. Será que alguém saberia o que ele andara a fazer naquela manhã?

- Se desconfiam eu não sei. Eles disseram que estas são as novas políticas de segurança da empresa, a aplicar em todos os departamentos.

- Novas regras de segurança…?

- Disseram que tinham a impressão que o Sr. andava a empatar tempo, que não mostrava resultados concretos em relação ao novo empreendimento.

- Mas ninguém parece saber que empreendimento é esse! O que está a acontecer nesta empresa?

Manuela não lhe dava tempo de responder a nenhuma pergunta.

- E aquilo que o Dr. Alberto me contou ontem? Eu não consegui pregar olho a noite inteira a pensar no que me contou. A minha senhoria disse que eu parecia um fantasma, sempre de um lado para o outro.

Manuela estava visivelmente alterada.

- Depois de uma noite destas chego aqui e encontro aquele maldito papel na fotocopiadora. Fiquei em pânico. Não sabia o que fazer.

- Quem levou aquele papel para lá? Porquê? Isso é mau para o Dr. Alberto? Isso é mau para mim? Eu preciso deste emprego! Nos dias que correm está impossível encontrar emprego. A minha prima ontem não teve sorte nenhuma.

- Tenha calma Manuela. A situação é muito grave, mas há quem não esteja de acordo com tudo na empresa e queira mudar alguma coisa.

- A sério? Ao menos isso! E quem são essas pessoas?

- Infelizmente, por enquanto, sou só eu. Aquele papel que a Manuela encontrou fui eu que deixei lá por esquecimento. Felizmente foi a Manuela que o encontrou e resolveu levá-lo para a nossa sala.

Alberto contou então o que fizera naquela manhã e tudo o que já descobrira sobre a organização.

As expressões de Manuela iam mudando conforme ele ia revelando o que sabia e Alberto teve então a certeza de que Manuela não o iria trair.

Contou também sobre o almoço com o seu amigo João e o que planeavam fazer. Manuela mostrou-se receosa, mas disponível para ajudar no que pudesse.

Alberto sabia que a sua ajuda era indispensável, mas não queria que ela ficasse numa situação de perigo. Queria colocá-la numa posição mais defensiva, mas Manuela recusou terminantemente:

- O Dr. sabe que na sala de secretariado há muita coscuvilhice. É muito fácil saber o que se passa no outros departamentos só por ouvir as colegas a conversar.

- Esta história das novas regras de segurança ainda nos vai ser útil. Com as secretárias a espiarem o que os directores fazem, vai correr muito mais informação. Isso vai ser muito útil para nós.

- Sim Manuela, é verdade. Mas é preciso muito cuidado.

 Eu sei Dr. Alberto. Amanhã vou falar com aqueles dois acessores. Vou dizer que pensei no que me disseram e que, se realmente são as novas regras, eu incluo as informações sobre si nos meus relatórios mensais. E assim, podemos colocar a informação que for mais útil para nós.

- Excelente Manuela! Vou falar com o inspector Bernardes para falarmos os três sobre este assunto. Agora convém voltarmos para cima, senão ainda põem outra pessoa para nos espiar aos dois.

- Sim, é melhor.

O resto do dia de trabalho correu sem mais nada fora do normal, mas Alberto e Manuela começaram a delinear o seu plano de acção.

Quando chegou a hora de saída, acharam por bem não alterar em nada as suas rotinas e que se fosse necessário falar, combinariam um encontro longe da empresa.

Alberto falou com João, contando toda a conversa que tivera com Manuela (o que deixou João bastante entusiasmado) e combinaram que iriam beber um copo essa noite, para criar um plano mais concreto.
7/31/2006

Capítulo IV - A Parceria

Manuela chegou mais cedo ao escritório, porque na véspera Alberto tinha-lhe pedido para fazer um conjunto inusitado de tarefas e ela não tinha tido tempo de terminar todas. Assim, decidida a terminar tudo o mais rapidamente possível, chegou cedo ao escritório e foi directa ao gabinete de Alberto para completar as tarefas que ainda tinha por fazer. Pegou numas cartas que tinham recebido na véspera e foi para a sala de secretariado, a fim de tirar umas fotocópias para arquivar, conforme o pedido de Alberto.

Manuela gostava muito de trabalhar com ele. Era um homem muito responsável, que sabia dar valor ao trabalho, dividindo os louros do sucesso por toda a equipa, mas assumindo as consequências como o responsável pela coordenação do trabalho de todos.

Era um homem educado, culto, inteligente e com muito boa figura. Alto, com 1,78 metros de altura, cabelo e olhos castanhos e uma figura esguia. “Um partidão”, costumava dizer Manuela às suas colegas do secretariado. Manuela simpatizava com Alberto, de uma forma quase fraternal, e achava que seria capaz de largar a segurança do emprego na organização, se ele decidisse mudar de empresa e a convidasse para ir com ele.

Por estas razões, Manuela tinha muito orgulho em pertencer à equipa de Alberto, pelo que cumpria as suas indicações com o maior zelo.

Naquela manhã, Manuela dirigiu-se à máquina fotocopiadora e o que encontrou lá alarmou-a.

A máquina, que supostamente devia estar desligada, além de estar ligada continha uma folha de papel.

- “Esta folha é um dos documentos “especiais” que o Dr. Alberto referiu de uma forma muito cuidadosa ontem” – pensou Manuela.

Ultimamente ele parecia muito ausente e taciturno e mostrara-se muito preocupado com a situação da empresa. Chegara mesmo a levantar uma ponta do véu, contando-lhe algumas coisas. E agora ela encontrava um desses documentos na fotocopiadora.

- “O que devo fazer? O Dr. Alberto parece muito preocupado com a realidade da empresa, e este é um dos documentos que ele referiu. Mas eu não sei quem o deixou aqui, nem com que objectivo. O que é que eu faço?”

Se deixasse ali o documento, alguém iria encontrá-lo e ela não sabia se isso seria bom ou mau. Se o tirasse, a pessoa que o deixou lá podia notar a sua falta e procurar por eles.

- “Como é que veio aqui parar? Eu fui a última pessoa a utilizar a fotocopiadora ontem e não deixei nada aqui, muito menos este documento.” – pensou Manuela. –“O melhor é levá-lo comigo e mostrar ao Dr. Alberto. Ele deve saber o que fazer com ele.”

Assim, colocou lá o conjunto de papéis que tinha para fotocopiar e guardou aquele documento tão estranho no fundo da pasta. Quando terminou de tirar as fotocópias, já os restantes funcionários chegavam à empresa.

Foi para a sala de Alberto e começou a organizar as coisas para o dia de trabalho, como fazia diariamente.

Entretanto, enquanto fazia horas para voltar para a empresa, Alberto pensava no que poderia fazer para testar a fidelidade de Manuela, pois não se apercebera que tinha deixado o último documento do Dr. Júlio na fotocopiadora.

Alberto estava preocupado que Manuela ficasse do lado da empresa, para tentar salvaguardar o seu emprego. Ele sabia que Manuela iria ter muitas dificuldades em encontrar um novo emprego, caso a acção de Alberto corresse mal, dificuldades essas que seriam levantadas pela própria organização.

Alberto pagou o que tinha consumido e entrou no carro. Guiou até à empresa, entregou o seu carro a um dos arrumadores de empresa e subiu até à sua sala.

- Bom dia Manuela.

- Bom dia Sr. Dr. Está com boa cara hoje. Dormiu bem?

- Dormi sim, Manuela, como já não dormia há muito tempo. Obrigado. Já tomou café?

- Ainda não Sr. Dr. Ia agora ao bar.

- Ainda bem. Assim vamos os dois. Sou eu que a convido para o café. Vamos?

- Vamos sim. Muito obrigada.

Enquanto estavam os dois no elevador, Alberto foi abordando o tema que tanto o consumia.

- Manuela. Há um assunto que me tem preocupado bastante. É uma situação muito séria, referente aqui à empresa e a toda a organização que a controla. Ontem eu já lhe mostrei alguns papéis com uns assuntos que eu considero graves e pareceu-me que também a preocuparam a si.

- Sim Sr. Dr. Sei ao que se está a referir e posso dizer-lhe que me deixou bastante assustada.

- Eu reparei Manuela. O pior é que a situação é muito mais grave do que aquilo.

Já se encontravam no bar, por isso mudaram de assunto, uma vez que estavam rodeados por outros colegas da empresa.

Quando voltaram para a sala de Alberto, Manuela pegou na pasta com os papéis que tinha fotocopiado e entregou-a a Alberto sem dizer nada. Alberto folheou os documentos e ficou siderado quando viu o último, aquele que ele esquecera na fotocopiadora.

Levantou a cabeça e viu Manuela, que olhava atentamente para ele. Ficou sem reacção.

Manuela disse:

-Hoje de manhã eu cheguei meia hora mais cedo para terminar o que ficara por fazer ontem e encontrei este documento na fotocopiadora.

- É muito comum uma pessoa esquecer-se de um papel na máquina quando tem de fotocopiar muitos de uma só vez. Eu sei porque a mim acontece-me várias vezes. Quando vi este papel, lembrei-me logo daqueles que o Dr. me mostrou ontem e que me assustaram muito, por isso achei que o melhor era trazê-lo para aqui, pois o Sr. Dr. saberia o que fazer.

- Fez bem Manuela. Fez muito bem.

- O que eu achei estranho foi encontrar este papel logo no dia seguinte ao Dr. me ter falado neste assunto. Será que isso pode ser perigoso para nós?

Alberto percebeu que Manuela utilizara a expressão “nós”, aparentemente colocando-se do lado dele, mas ele não podia ter a certeza. E se fosse uma armadilha?

Alberto não podia correr esse risco. Ainda não.

- Vamos deixar isto aqui por agora. Eu depois falo com o Dr. Júlio sobre isto.

- Muito bem, Sr. Dr.

Poderia ser só impressão, mas Alberto achou que Manuela ficara um pouco desapontada.

Durante o resto da manhã, trabalharam normalmente e não voltaram a falar do ocorrido.

Por volta da uma hora, Manuela bate à porta de Alberto e diz:

- Precisa de mais alguma coisa, Dr. Alberto?

- Não Manuela, muito obrigado. Vai almoçar aqui no refeitório?

- Não Sr. Dr. Vou almoçar com uma prima minha que veio para uma entrevista de emprego.

- Aqui na empresa?

- Não. Numa loja de roupa feminina.

- Muito bem. Bom apetite e boa sorte para a sua prima.

- Obrigada Sr. Dr. Até logo.

- Até logo Manuela.

Alberto ficou a pensar nos acontecimentos daquela manhã. Como pudera deixar um papel tão comprometedor na fotocopiadora? O facto de Manuela o ter encontrado era positivo ou negativo? Seria um risco demasiado grande ter referido aquele assunto a Manuela? Um risco era de certeza, mas Alberto precisava de um aliado dentro da organização e, se não pudesse contar com Manuela, não podia contar com mais ninguém e tudo estava irremediavelmente perdido. – “Como eu disse. Os dados estão lançados”.

O telemóvel de Alberto começou a tocar. Era o João.

- Tou?

- Alberto! Despachei-me mais cedo e já estou cá em baixo. Desces?

- Sim. Vou já descer.

Abriu a gaveta onde tinha guardado as cópias, colocou-as todas numa pasta e deixou na gaveta o papel que tinha ficado na fotocopiadora.

Chamou o elevador e, para sua admiração, encontrou lá o seu superior.

- Júlio! Bom dia.

- Olá Alberto. Estás a trabalhar no novo projecto?

- Claro. Mas ainda estou nas preparações iniciais. Ainda vai demorar algum tempo.

- Eu sei. Essas coisas demoram sempre, se queremos que fiquem bem feitas. Vens almoçar no refeitório?

- Não. Já tinha combinado com um amigo. Fica para amanhã.

- Tudo bem. Também sabe bem sair daqui para mudar de ares. Fazes tu muito bem. Até logo.

- Até logo Júlio.

Depois do Júlio sair, no andar do refeitório, Alberto ficou sozinho no elevador, agarrado à pasta com todos aqueles documentos perigosos. Só então notou que tinha os nós dos dedos brancos, da força com que estava a fazer na mão segurava a pasta.

Relaxou a mão e pensou: “Não posso ficar assim tão tenso, ou ainda deito tudo a perder.”

Mal saiu do elevador, deu de caras com a alegria e jovialidade do seu amigo João. É um homem alegra, alto, com mais de 1,80 metros, cabelo e olhos pretos, pele muito morena, constituição atlética e robusta e um sorriso cativante e constante. Deu um forte e sincero abraço a Alberto e disse:

- Ora viva! Tas com cara de fome. Vamos a isso?

- Olá João. Vamos lá que tenho mesmo fome.

Foram conversando até que João, sem meias medidas perguntou:

- Ouve lá. As tuas maneiras ontem ao telefone deixaram-me com a pulga atrás da orelha. O que se passa contigo.

- Tenho de falar contigo sobre um assunto muito sério. A organização em que eu trabalho está metida em coisas muito graves e agora que eu tenha parte activa nelas.

- Tou a ver. Eu sempre te disse que tu não eras homem para te meteres em intrigas políticas.

- Pois não. Mas o problema não é esse. Se fosse apenas pelas intrigas políticas, eu estava a marimbar-me para tudo isto. O problema é que eu descobri que a organização que detém a empresa onde trabalho está envolvida em tráfico de armas e prostituição. É uma rede que envolve países da Europa de Leste, África e América Latina.

- Tens a certeza?

- Absoluta! E nesta pasta tenho algumas provas do que acabei de te dizer.

- Isso é gravíssimo! O que tencionas fazer?

- Tenciono revelar isto tudo em público, mas de uma forma que destrua completamente a organização. Além disso tenho de conseguir evitar que os responsáveis se safem disto, ou a minha vida perde todo e qualquer valor.

. Sabes que tens todo o meu apoio e ajuda, mas eu não te posso garantir nada oficialmente. Sabes muito bem que a Polícia Judiciária acaba sempre por ser manietada pelo poder político.

- Eu sei. Mas a tua ajuda, a nível pessoal, já é muito preciosa.

- Pois conta com ela a 100%.

Nesta altura chegaram ao restaurante e João estacionou o carro no parque.

- Reservei uma mesa aqui, por isso vamos lá que estou cheio de fome.

- Eu também.

Já sentados à mesa, com os respectivos pedidos à frente, João voltou à carga:

- Mas conta lá! O que foi que descobriste? Quanto é que sabes? Contas com algum aliado na empresa, ou mais uma vez vais entrar numa cruzada solitária, como nos tempos da faculdade?

- Não tenho a certeza. Pareceu-me que a Manuela ficou muito perturbada com o pouquíssimo que eu referi, mas não sei se posso confiar nela para nos ajudar nisto. Sabes muito bem que o risco é muito grande.

- A Manuela? Aquela tua secretária toda jeitosa? Como é que ela está?

- Deixa-te disso João. Ela é uma excelente profissional e se estiver do meu lado pode ser uma ajuda muito importante.

- Do nosso lado, queres tu dizer. Mas tu sabes muito bem que eu sempre simpatizei com ela.

- Sei sim senhor, mas também nunca disseste nada.

- Bem. Vamos lá aos pormenores. Mostra mas é o que conseguiste sacar de lá.

- Eis aqui as primeiras provas. Mas acredita que há muito mais. Mesmo agora eles estão a querer iniciar um novo projecto, e desta vez querem que eu esteja incluído.

- Mmmmmm! Isto é uma autêntica bomba! O que pensas fazer com isto?

- Um conjunto de cópias é para ti. Um para mim e outro para a Manuela, caso ela entre na equipa.

- Mas aqui estão 4 conjuntos. E o outro?

- O outro vou guardar no cofre forte do banco, com instruções escritas ao meu advogado, para o caso de me acontecer alguma coisa.

- Bem pensado. E depois?

- Depois temos de confirmar se a Manuela está ou não do nosso lado.

- E como contas fazer isso?

Alberto contou então a João o que fizera naquela manhã e o que acontecera com o papel que Manuela encontrara.

- Sabes o que te digo? – disse João.

- Neste momento já não tens nada a perder em incluíres a Manuela. Pelo que me contaste, ela já começa a ver que as coisas na organização não são muito claras e, se desconfia de ti por causa do tal papel, já pode ter dito qualquer coisa a alguém. Mas na minha opinião, ela é uma mulher íntegra, honesta e inteligente e vai ficar do nosso lado de certeza.

- Eu também acho que sim. Aliás, ela já trabalha comigo há uns anos e sempre me disse que gostava da minha maneira de trabalhar e que podia contar com ela, mesmo que eu resolvesse sair da empresa.

- Quando é que ela te disse isso? Hoje?

- Não. Já no início do ano passado, quando eu estive quase para sair da empresa, lembras-te?

- Perfeitamente. Nunca percebi o que te fez ficar lá.

- Sinceramente, acho que foi o comodismo.

- Pois! Bem, vamos lá embora que eu não sou director de nada e tenho horas para trabalhar.

. Vamos lá João. E obrigado pelo teu apoio.

- De nada, mas já sabes que isso não é novidade. Sempre o tiveste, desde que somos pequenos.

- Eu sei. E tu tens o meu.

- Claro.

Quando regressou à empresa, Alberto estava decidido a contar tudo o que sabia e o que desconfiava a Manuela.

Era hora de arriscar.

7/27/2006

Capítulo III - A Investida

Alberto acordou muito bem disposto. Levantou-se logo que o despertador tocou, foi para a casa de banho onde tomou um chuveiro revigorante, com a água mais fria do que quente o que, para aquela altura do ano, requeria alguma força de vontade. Preparou um pequeno-almoço diferente daquele que tomava todos os dias e foi para o escritório.

Tal como ele tinha previsto, foi o primeiro a chegar e pode dirigir-se ao escritório do seu superior para procurar as provas que tanto precisava e que não podia ter juntado na véspera.

Tendo o cuidado de não acender nenhuma luz para não chamar a atenção do exterior, Alberto esgueirou-se pelos corredores, sempre atento às movimentações da equipa de segurança, que fazia rondas durante o turno da noite. Iria ser muito complicado explicar o que estava a fazer ali a uma hora tão imprópria sem levantar suspeitas, por isso ele queria evitar ser encontrado.

Quando estava a passar pela porta do seu próprio escritório, ouviu vozes ao fundo do corredor. Os seguranças estavam a caminhar na sua direcção. “Por sorte eles fazem as rondas aos pares” pensou Alberto. “Se assim não fosse, eu já tinha sido apanhado”.

No momento em que os seguranças abriam as portas de acesso ao corredor, Alberto fechava a porta de acesso às casas de banho, tendo o cuidado de não ficar por perto da porta, não fossem os seguranças demasiado zelosos da sua profissão e verificassem todos os compartimentos do edifício, incluindo as casas de banho.

No entanto, os seguranças não pareciam sair daquela zona. Parecia que tinham encontrado algum motivo suspeito para não continuarem a sua ronda. Alberto conseguia ouvir as suas vozes, mas não conseguia distinguir o que eles diziam. Pelo som parecia que eles estavam mesmo à porta das casas de banho e não saíam de lá.

Alberto começou a recear que a sua empreitada não corresse bem. Ainda nem tinha conseguido chegar ao escritório do seu superior, quanto mais investigar os seus papéis. Se as coisas continuassem assim, os seus planos teriam de ser adiados.

Enquanto pensava nisto, a porta abriu e um dos seguranças entrou.

Alberto não sabia o que fazer. Ele estava num dos cubículos, com a porta fechada e em pé por cima da sanita, como vira fazer um muitos filmes de cinema, e estava a imaginar o ridículo que seria ser encontrado pelo segurança naquela posição. Nunca iria encontrar uma desculpa que fosse convincente, ainda por mais por ser uma hora a que, supostamente, ele nem devia estar dentro do edifício.

No entanto, o segurança não andava à procura de nada fora do normal. Ele apenas tinha necessidade de utilizar a casa de banho. Alberto nem ousava respirar, com medo de ser notado pelo segurança que estava mesmo ali ao lado.

O tempo parecia não se mexer. Para Alberto, aquele tempo parecia durar séculos. Ele tinha a certeza que por esta altura já todos os outros funcionários tinham chegado e a sua oportunidade tinha sido perdida.

Quando o segurança saiu, Alberto esperou ainda algum tempo, sempre com o ouvido alerta ao mínimo som, não fosse o segurança voltar para trás. Ele espreitou pela porta e ainda viu luz no corredor, o que significava que os seguranças ainda não tinham saído daquela área.

“Não posso ficar eternamente à espera que estes dois desapareçam daqui, tenho de ir já para o escritório do Dr. Júlio, senão perco a oportunidade de procurar o que preciso”.

Se bem o pensou, melhor o fez. Com todas as cautelas, percorreu o corredor na direcção da sala do seu superior, tendo o cuidado de aperceber-se que os seguranças estavam a efectuar a sua ronda pela sala de secretariado, onde se situava o relógio de controlo das rondas.

Caminhando de cócoras, para que a sua sombra não reflectisse no vidro fosco da sala de secretariado, Alberto conseguiu chegar até ao seu destino, já quase desesperado pelo tempo perdido. Este tempo poderia fazer-lhe falta na procura dos documentos, pois ele não sabia onde o Dr. Júlio os guardava.

Entrando na sala, ficou sem saber por que lado começar. “No computador não vale a pena”, pensou, pois o Dr. Júlio nunca iria guardar documentos tão comprometedores num local que pode facilmente ser pirateado.

O mais lógico seria procurar nas gavetas da mesa de trabalho, pois seria o local mais próximo do Dr. Júlio. Mas, como seria de espera, as gavetas estavam fechadas à chave, com excepção da primeira gaveta onde ele guardava algumas canetas, clips, agrafes e cartões de visita de vendedores e outros contactos menos importantes.

O seu trabalho não seria assim tão simples.

No entanto Alberto não desanimou. “Bem que eu sempre disse que os meus tempos de escuteiro iam ser úteis para toda a vida”, pensou. Usando um clip que tirou da gaveta superior, começou a tentar abrir as gavetas que estavam fechadas à chave. O azar é que a prática já não era a mesma dos tempos em que se especializou em abrir os aloquetes dos colegas escuteiros, por isso o clip que ele estava a usar partiu-se. Pegou num segundo clip e continuou a tentar abrir a gaveta. Ele colocava o clip na fechadura, movia-o de forma a sentir os mecanismos e tentava forçá-los a moverem-se para as posições que permitiam abrir a fechadura. Mas este segundo clip também partiu, assim como o terceiro que ele usou na sua tentativa. Já estava a chamar nomes aos clips todos quando finalmente abriu a gaveta, com recurso ao quarto clip da caixa do Dr. Júlio.

Para sua frustração, esta não continha nada de relevante para seu caso, apenas livros de cheques e extractos bancários que não constituíam prova de nada.

A segunda gaveta ofereceu menos resistência, mas mesmo assim foram necessários 2 clips e muito suor para a sua abertura, revelando uma agenda que logo despertou a sua atenção:

- “Esta agenda tem o contacto de muita gente influente. Pode vir a ser muito importante conseguir uma cópia de todos estes contactos, mas agora não tenho tempo para isto”.

Por alturas da terceira gaveta Alberto já tinha recuperado alguma da sua anterior perícia, pelo que conseguiu abrir a gaveta à segunda tentativa, sem partir mais nenhum clip.

-“À terceira é de vez! Finalmente encontrei estes malditos documentos.”

Olhando para o relógio, viu com alívio que ainda tinha bastante tempo para tirar fotocópias daqueles documentos todos. Sabendo que os seguranças andavam por perto, saiu com muito cuidado do escritório, dirigiu-se à sala de secretariado, onde havia várias máquinas fotocopiadoras. Não ouvindo ruído nenhum, começou a tirar cópias de todos os documentos, sempre a olhar por cima do ombro, achando que a máquina estava a fazer um barulho tão grande que iria acordar a cidade inteira, trazendo os seguranças num ápice.

-“É melhor tirar 4 cópias de cada folha. Uma para mim, uma para o João, uma para guardar no cofre-forte do banco, com instruções dadas ao advogado para as abrir caso me aconteça alguma coisa e a última para a Manuela, se ela revelar ser a pessoa que aparenta ser. Mas isso, eu descubro mais tarde.”

Com as cópias bem guardadas na sua pasta, voltou para o escritório do Dr. Júlio e devolveu os originais para a respectiva gaveta, tendo o cuidado de os colocar exactamente na ordem em que os encontrou. Fechou a gaveta com o clip que tinha na mão e saiu do escritório. Quando já estava a chegar ao seu escritório lembrou-se que não tinha fechado as restantes gavetas da mesa. Voltou para trás e fechou as gavetas, apanhou todos os pedaços de clip que tinha partido nas suas tentativas para abrir as gavetas.

Com as cópias debaixo do braço, voltou para o seu escritório, fechou a porta atrás de si mas não acendeu as luzes, sempre a pensar nos seguranças que andavam por ali.

Guardou as cópias na gaveta que tinha na sua mesa, fechou a gaveta à chave e guardou a chave no bolso.

-“Depois do que acabei de fazer, nem sei como tenho coragem de deixar estes documentos na minha gaveta, mas é só por uma horas e de momento ninguém desconfia de mim. Ainda hoje eu tiro estes papéis daqui. Agora que consegui fazer o que queria, preciso sair daqui, para que ninguém saiba que cá estive sozinho. É melhor ir até um café fazer horas e voltar para cá na hora do costume. Assim não levantarei suspeitas.”

Já estava a descontrair no elevador, quando aconteceu uma situação que quase deitava tudo a perder. Quando as portas do elevador se abriram no piso de saída, Alberto viu os dois seguranças, mas a sua sorte foi que eles estavam de costas voltadas para o elevador e não o viram. Reagiu rapidamente e fechou as portas, descendo até ao piso das garagens. Saiu ai e resolveu abandonar o edifício pela porta pequena que existia ao lado da entrada dos carros, que era utilizada pelos arrumadores e motoristas da empresa. A esta hora a porta já está aberta, pois os motoristas já tinham iniciado o seu horário de trabalho.

Conseguiu sair do edifício sem encontrar mais dificuldades, pegou no carro que estava estacionado numa rua lateral e andou 3 quarteirões até se sentar numa mesa de café e pode finalmente relaxar. Tinha conseguido dar o primeiro passo!

Será que iria conseguir completar a sua cruzada?Alberto não conseguia deixar de pensar nisso.

7/21/2006

Capítulo II - O Telefonema

Nesse momento os pensamentos de Alberto foram interrompidos pelo toque do telefone.

- Sim? – Atendeu Alberto.

 - Dr. Alberto, está ao telefone o inspector Bernardes da Polícia Judiciária para falar com o senhor.

 - Obrigado Manuela. Passe a chamada que eu falo com ele.

O inspector João Bernardes era um amigo de infância com quem Alberto mantinha uma amizade muito forte.

- João? Então rapaz, como tens passado?

- Alberto! Que é feito de ti? Já não dizes nada desde a semana passada. Isso nem parece teu. Andas com muito trabalho, é?

 - Nem te passa meu amigo! Ainda bem que telefonaste. És mesmo a pessoa com quem eu queria falar. Tens disponibilidade para almoçar comigo amanhã?

- Amanhã? Pode ser. Queres que passe por aí?

- Perfeito! Fica combinado para a uma?

- Uma e meia é melhor, que eu tenho uma diligência e se ficar marcado há uma fica apertado.

- Muito bem. Então há uma e meia estou à entrada à tua espera. Escusas de procurar lugar para estacionar.

- Tá combinado, então. Até amanhã.

- Até amanhã João. E obrigado.

- Obrigado?! Ora essa, Alberto, sabes que é sempre um prazer falar contigo

- Contigo também. Até amanhã.

- Até amanhã.

Este telefonema deixou Alberto com outra disposição. João era um bom amigo e uma pessoa em quem se podia confiar tudo. Mesmo este problema bicudo com que Alberto de debatia.

Alberto pensou em juntar os documentos que provassem a natureza da organização, mas essa era uma tarefa que iria demorar muito tempo. Os papéis a juntar eram muitos e Alberto queria incluir tudo, mas mantendo essa intenção em segredo, para não ser impedido de o conseguir. Ele sabia que não ia conseguir juntar todas as provas a tempo de levar para o almoço com João, mas poderia levar, pelo menos, material suficiente para lhe mostrar em que tipo de coisa ele estava envolvido e, com a ajuda de João, montar uma estratégia que lhe permitisse destruir a organização.

Outra pessoa que ele queria sondar era Manuela, a sua secretária. Durante os anos em que trabalhava com ela, Alberto sempre a considerou uma excelente profissional e uma pessoa íntegra e honesta.

Sempre fora uma funcionária mais do que competente e acompanhara Alberto ao longo da sua carreira, pois Alberto gostava da maneira como ela trabalhava e Manuela parecia ser leal e dedicada a Alberto, não à organização em si. Mas isso era um assunto que Alberto tinha de ponderar muito bem, porque aquela organização podia ter “infiltrado” Manuela só para controlar todos os movimentos de Alberto.

Sem perder mais tempo, Alberto começou a juntar todas as provas que poderia mostrar a João.

- Manuela, traga-me por favor os arquivos do ano passado. Preciso de fazer um apanhado do que foi feito.

- Sim sr, Dr. Alberto. Quer também os relatórios de actividade?

- Boa ideia Manuela. Muito obrigado.

Ao desligar o telefone pensou: “Bem! Os dados começam a ser lançados. Que a sorte esteja do meu lado.”

Quando chegou a casa ao fim do dia, levou consigo cópias de todos os documentos que ele e Manuela conseguiram juntar naquela tarde. Manuela demonstrou uma eficiência muito grande, mas a sua preocupação era evidente à medida que os documentos se aglomeravam. Alberto reparou que as provas que estavam a reunir a incomodavam muito, chegando à conclusão que ela nada sabia sobre a verdade da organização.

Alberto decidiu que iria testar Manuela no dia seguinte, para saber se poderia contar com a sua ajuda ou se teria de a deixar de lado.

Guardou todos os documentos no cofre do seu apartamento e foi preparar o jantar.

Durante o jantar, Alberto acompanhou o noticiário. Uma notícia em especial captou a sua atenção. O presidente da organização aparecia em grande destaque, ao lado do Primeiro-Ministro, na inauguração de um centro de caridade criado pela organização.

Alberto sabia perfeitamente que este centro não passava de uma fachada para os verdadeiros negócios da organização, mas pensou que se os seus planos corressem bem, ele iria desmascarar esta farsa.

Depois de ver um filme que passou na televisão, Alberto foi deitar-se, pois pensava em chegar mais cedo ao escritório no dia seguinte. Ele queria ser o primeiro a chegar, para poder recolher uns documentos que não tinha conseguido nesse dia por estarem na mesa do seu superior e, principalmente, para preparar a sua “vigilância” a Manuela.

Com os pensamentos orientados nesta acção, Alberto adormeceu facilmente, coisa que já não acontecia há muito tempo.

 
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